Justiça começa a ouvir acusados por ataques a ônibus de São Luís

O juiz titular da 3ª Vara Criminal da Capital, José Gonçalo de Sousa Filho, iniciou nesta quinta-feira (27) a série de audiências de instrução para colher os depoimentos das testemunhas e dos acusados de participação nos eventos criminosos ocorridos em São Luís, nos dias em que antecederam as eleições de 2016, incluindo ataques a ônibus e prédios públicos.

Serão ouvidos, pessoalmente e por videoconferência, 36 integrantes de facções criminosas (Bonde dos 40, Primeiro Comando da Capital – PCC, Primeiro Comando do Maranhão – PCM e Comando Vermelho – CV), dos quais 12 estão presos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, 23 no presídio federal de Mossoró (RN) e um está solto, portando tornozeleira eletrônica.

Na audiência desta quinta-feira (27), o juiz leu a denúncia e colheu o depoimento do delegado de Polícia, Odilardo Muniz Lima Filho, que junto com os delgados André Luís Gossain e Thiago Matos Bardal, foi arrolado como testemunha.

A peça do Ministério Público foi lida na presença dos acusados que estão presos em São Luís e assistida por meio de videoconferência pelos acusados que se encontram recolhidos no presídio do Rio Grande do Norte.

Participaram da audiência a promotora de justiça Lize de Maria Brandão de Sá Costa, que assina a denúncia, a defensora pública Marta Beatriz de Carvalho Xavier e os advogados dos acusados.

Os fatos – conforme a denúncia do Ministério Público, as diversas facções criminosas, por meio das lideranças custodiados no Complexo de Pedrinhas, selaram trégua em suas divergências e se uniram numa ação orquestrada em São Luís, que resultou em ataques incendiários a ônibus e prédios públicos (bancos e escolas) e também contra agentes penitenciários e policiais.

Tais operações foram denominadas “Salve Geral” e tinha por objetivo garantir direitos aos presos e denunciar suposta opressão do poder público. O Ministério Público sustenta que, para viabilizar a execução do plano, os líderes das facções organizaram greve de fome nos presídios, suspenderam as visitas familiares e íntimas e rasgaram uniformes, fazendo com que os presos usassem somente cuecas.
O Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública, no entanto, identificou a trama em curso e a levou ao conhecimento das autoridades policiais competentes. As informações colhidas pelo Serviço de Inteligência indicavam que os ataques a ônibus e prédios públicos se estenderiam até o período das eleições, para chamar a atenção das autoridades e atrapalhar o pleito.

O Ministério Público relata que foi formado então um grupo de investigação policial para salvaguardar a sociedade, identificar e efetuar a prisão dos possíveis autores das ações. Mesmo assim, no dia 27/09/2016, no início da noite, as organizações criminosas inauguraram os eventos prometidos, executando ataques em diversos pontos da cidade, como Bairro de Fátima, Coroadinho/Bom Jesus e Tibiri. Além dos ataques a ônibus e prédios públicos, houve registros de homicídio, roubo e mais uma série de atos criminosos, que se estenderam até o dia 02/10/2016, dia em que ocorreu o primeiro turno das eleições.

Relação com os 36 acusados – Wilton Moreira Cunha, Wilton Torres, Hailton Silva, Alexsandro Silva Marques, Mauro Soares Alves, Fábio Coelho Santos, Eliakim Davila Machado, Hilton Jhon Alves de Araújo, Robson Bruno Pereira de Oliveira, Josué Gusmão Sousa Júnior, Elvis Leno Vale da Silva, Jefferson de Souza Lopes, Jaciel Jorge Nazareno Moreira, Fábio André Farias, Marcos André Silva Vieira, Alexandro Oliveira Ribeiro, Cilas Pereira Borges, Wlderley Moraes, Jorge Henrique Amorim Martins, Flávio Mendonça Costa, Gustavo Alves Feitosa, William de Oliveira Costa, Glacenilson Raimundo Santos, Glaciel Silvestre Santos, Cristiano Nunes Moraes, Edson Mendanha Mendes, Sérgio Luís Santos Alves, Genilson Pereira, Ricardo Costa da Silva, Moabe Santos Ferreira, Leanderson Nonato dos Santos, Kenny Aleson Rabelo Frazão, Rones Lopes da Silva, Henrique Borges Chagas, Mircio Bruno de Sousa e Antônio da Silva Mendes.

Ministro da Defesa garante a Eliziane medidas de segurança em São Luís

whatsapp-image-2016-09-30-at-17-13-37O ministro da Defesa, Raul Jungmann, em conversa por telefone, garantiu à deputada federal e candidata à prefeitura de São Luís, Eliziane Gama (PPS), que a pasta está tomando providências imediatas para garantir a segurança da população da capital maranhense que sofre as consequências de uma onda de violência nestas últimas semanas.

Entre a noite desta quinta-feira (29) até a tarde desta sexta (30), pelo menos 5 ônibus coletivos foram queimados em ruas da cidade e da região metropolitana. Um escola foi incendiada no início da noite. Agências bancárias também foram alvo de bandidos.

Gama solicitou, nesta sexta-feira, ao ministro o apoio do Exercito para garantir segurança ao povo ludovicense.

“São Luís está sitiada. Há uma situação de instabilidade social há poucos horas do início da votação o que exige pronta resposta do Estado. Pedimos providências ao Ministro da Defesa para que avaliasse nossa solicitação de enviar o Exército para acompanhar o pleito e garantir a segurança necessária para a população local”, destacou Eliziane Gama.

Segundo Eliziane, o ministro da Defesa garantiu estar tomando providências imediatas para garantir a normalidade nas ruas, nestas horas que antecedem a votação em primeiro turno.

“O ministro nos disse ainda que já manteve contato com o comando do Exército em São Luís, no sentido de garantir ação das tropas na cidade”, finalizou.

Polícia age rápido e prende 16 suspeitos de ataques a ônibus

Dezesseis pessoas foram presas no início da noite de ontem, suspeitas de terem participado de ataques a ônibus na região metropolitana de São Luís. Destes, 11 foram apresentados na Superintendência Estadual de Investigações Criminais (SEIC).

Reprodução TV Mirante

Reprodução TV Mirante, afiliada a Rede Globo

Os ataques foram contra quatro ônibus e um micro-ônibus, em São Luís e São José de Ribamar, municípios da região metropolitana de São Luís. Na capital, os atentados aos ônibus aconteceram nos bairros Alto do Pinho, Santa Bárbara e na sede da empresa Viação Abreu, no Jardim São Cristóvão. Já em Ribamar, um micro-ônibus que presta serviços de transporte alternativo, também foi queimado.

A operação que, ainda não tem data para terminar, está sendo coordenada pelo responsável do Comando de Policiamento Metropolitano (COM), Coronel Marco Antônio Alves. De acordo com o Coronel, dentre os 16 presos, cinco têm 17 anos de idade. Com eles, foi encontrado material inflamável, um revólver calibre 38 com 3 munições, além de um papelote de maconha para uso pessoal. Os suspeitos foram surpreendidos nos bairros Vila Brasil, Sol e Mar e Barragem do Bacanga.

Ainda segundo o Coronel, apesar das abordagens terem sido feitas em pontos diferentes da capital maranhense, a localidade da Barragem do Bacanga receberá uma atenção especial, já que naquela área, o fluxo de ações criminosas é considerada bastante alta. “A região metropolitana será monitorada com mais intensidade, mas daremos uma atenção especial a Barragem do Bacanga, pois lá a acão dos criminosos têm sido mais frequente”, disse o militar.

O Coronel Alves pediu uma maior cautela por parte da população, e afirmou que não há nenhum motivo para pânico, pois o policiamento nos próximos dias será extensivo por toda a área metropolitana de São Luís.

Até o momento, não há nenhuma confirmação que a ordem dos ataques tenha sido direcionada de dentro do Complexo Penitenciário de Pedrinhas.

Em nota, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP) afirmou que o trabalho de investigação vai continuar, e ressaltou ainda que todas as medidas já foram tomadas para garantir a segurança da população.

“Penso nela a todo instante”, diz mãe de Ana Clara

O blog reproduz na íntegra a excelente entrevista do repórter de O Estado, Thiago Bastos com Juliane Santos, mãe da pequena Ana Clara, morta no início de janeiro após ataques a ônibus de São Luís. Na entrevista, Juliane fala de como se recupera de tragédia, do acompanhamento a filha menor, que sobreviveu aos ataques e assegura que perdoa os assassinos de Ana Clara. Abaixo, a entrevista:

Juliane, de 22 anos, mãe da pequena Ana Clara

Juliane, de 22 anos, mãe da pequena Ana Clara

O Estado – Como você está atualmente? Pode-se dizer que você está superando a morte da sua filha?

Juliane Santos – Foi muito difícil saber que ela [Ana Clara] havia morrido. A ficha, para te falar a verdade, ainda não caiu. Penso nela a todo instante. É desumano aceitar que eu, naquele dia que estava apenas voltando para a minha casa com as minhas filhas, tenha sido vítima daquilo. O mundo está desumano. Ninguém acredita mais no valor das pessoas; só pensam o tempo todo em matar, em querer o mal alheio. Isso precisa mudar. Posso te dizer que nos últimos dias estou chorando um pouco menos a morte da Ana Clara, mas o que aconteceu comigo não desejo a ninguém. Posso te dizer ainda que a perda de Ana Clara é uma ferida em meu coração que jamais irá cicatrizar.

 O Estado – Sei que é difícil te perguntar isso, mas o que você lembra do dia do incêndio ao coletivo?

Juliane – De pouca coisa. Foi tudo muito rápido. Assim que os bandidos entraram no ônibus e começaram a dizer para nós descermos, não tive outra reação a não ser sair com as minhas filhas daquele inferno. Mas não deu tempo, pois assim que estava na escada já descendo do coletivo, o fogo tomou conta de tudo. Me sinto triste pois não consegui impedir que a Ana Clara fosse atingida pelo fogo. Eu também fui incendiada. A Lorane também. Depois que eu desci do ônibus só me lembro que ao acordar no hospital perguntei por minhas filhas, para saber como elas estavam.

 O Estado – Sua família, por opção e orientação médica, falou da morte da Ana Clara mais de um mês depois do ocorrido. Você sentiu mágoa por causa disso?

Juliane Santos – Claro que não, entendi a situação perfeitamente. Lógico que, quando eu perguntava pela Ana Clara, enquanto estive no hospital, tanto em São Luís quanto em Brasília, queria saber a verdade. Mas nem sei como reagiria. Essa notícia poderia realmente me abalar de tal forma que não sei até que ponto não poderia piorar.

 O Estado – Você aparenta ser uma pessoa muito religiosa. Como essa fé te ajuda a superar esse momento difícil na tua vida?

Juliane Santos – A fé é tudo. Sem ela, não sei se teria chegado até aqui. Sair do hospital foi uma vitória. Ver a Lorane viva, também. Tudo na vida tem uma razão de ser. Se Deus quis que a Ana Clara não estivesse mais entre nós, então deve haver uma razão. É essa mesma fé que me leva a perdoar os homens que queimaram aquele ônibus e tiraram a Ana Clara de mim. Não vale a pena carregar mágoa em meu peito. De que adiantaria eu alimentar esse ódio todo daqueles homens se Ana Clara não vai voltar?

 O Estado – Você saiu do hospital até antes do que previam os médicos. Mesmo assim, seu corpo ainda está muito afetado pelas queimaduras?

Juliane Santos – Está sim. Os próprios médicos disseram que é normal. Ainda estou com as minhas costas com feridas geradas pelas queimaduras e também com os meus braços afetados. Até para pentear o meu cabelo tenho que pedir ajuda. Mas vou melhorar, com fé em Deus.

 O Estado – Você deve comparecer três vezes por semana no Hospital Regional Asa Norte, onde esteve internada para continuar com o tratamento. Que procedimento médico você está recebendo?

Juliane Santos – Eles [os médicos] verificam como estão os ferimentos e trocam os curativos. Além disso, também estou fazendo sessões de fisioterapia e me submetendo a tratamento psicológico.

 O Estado – Já há uma previsão sobre quando voltará para São Luís?

Juliane Santos – Tudo vai depender do restante do tratamento. Ainda não sei quando irei voltar para São Luís.

 O Estado – Até que ponto a presença da Lorane (irmã de Ana Clara) te ajudou a receber um pouco melhor a notícia da morte da Ana Clara?

Juliane Santos – Foi fundamental. Na verdade, está sendo. A Lorane é a alegria da casa onde estou hospedada (Juliane está na casa de uma tia, em Brasília). Ela é um dos presentes de Deus à minha vida. Por ela [Lorane], também que estou lutando para superar esse momento difícil.

 O Estado – O que você objetiva para a tua vida daqui para frente? Mantém vivos os sonhos, as metas?

Juliane Santos – Acho que a prioridade é cuidar da Lorane. É a minha filha e que ainda depende de mim. Minha família também espera muito de mim. Sou nova, tenho apenas 22 anos de vida, e espero ainda ter muitas alegrias, apesar de que levarei a Ana Clara em meu coração até o fim dos meus dias.

De volta para casa

Reprodução TV Mirante

Lorrane Santos / Reprodução TV Mirante

A pequena Lorrane Beatriz Santos, de um ano e seis meses de idade, recebeu alta hoje do Hospital Infantil Juvêncio Matos. Ela foi uma das vítimas dos ataques a ônibus no dia 3 de janeiro em São Luís e sofreu queimaduras em 20% de seu corpo.

 Lorrane é irmã de Ana Clara Santos Sousa, que infelizmente não resistiu aos graves ferimentos e morreu no dia 6 de janeiro, caso que provocou comoção em todo o país.

 A mãe das meninas, Juliane Santos, de apenas 22 anos de idade, foi transferida na semana passada para o Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília. Até o momento, os médicos não deram previsão de alta e retorno para a capital.

 Desde a noite dos ataques, Juliane não mais viu as suas filhas.

Quando a Justiça ajuda o crime…

Praguinha é preso e solto constantemente / Foto: Biné Morais

Praguinha é preso e solto constantemente / Foto: Biné Morais

Marco D’Eça – O bandido Hilton John, o Praguinha, que deu a ordem para os ataques de sexta-feira, em São Luís, já é condenado a 20 anos de cadeia e responde a vários outros processos.

Em 2013, teve três juris marcados e nenhum realizado. Duas vezes por culpa dos advogados; outra, por ausência do promotor.

Em 2012, Praguinha deixou a prisão, autorizado pelo juiz responsável, em um indulto natalino. Não voltou mais.

A polícia conseguiu recapturá-lo quando praticava seus crimes na capital. Voltou à cadeia mais ganhou imediatamente uma condicional, sendo novamente libertado.

Um dos traficantes da área do Maiobão, que atuou quando bandidos metralharam o fórum local, teve mandado de prisão expedido pela juíza da Comarca.

Antes mesmo de o mandado ser cumprido, uma banca de quatro advogados paulistas já agia no Tribunal de Justiça para derrubá-lo.

São aspectos  do problema que envolve a criminalidade no Maranhão.

Que deveria ser responsabilidade de todos…