Coluna do Sarney: Os santos Reis

O Advento, o período evangélico em que se prepara a chegada do Criador, enseja o período de festas do Natal, que vai desde o nascimento de Jesus até o dia de Seu Batismo. Mas é com a Epifania, o dia dos Santos Reis, que verdadeiramente se encerra esse época de celebração. Desde os primeiros tempos da Igreja esta festa – que era a única dos primeiros cristãos – se repete, a cada ano, com as características dos tempos.

Parece que essa data englobava muitos acontecimentos: o Nascimento, a visita dos Magos, o Batismo e até as Bodas de Caná. Era chamada de Illuminatio, Manifestatio, Declaratio, mas ficou com o nome grego de epifania, isto é, a aparição súbita, a compreensão. As referências que dispomos sobre esta Epifania – o registro da revelação do Senhor – são muito pequenas. Começa pela ignorância com que os evangelistas tratam o assunto, até mesmo esquecendo de citá-lo. Apenas São Mateus, brevemente (2, 1-12), sem dizer seus nomes, faz referência a eles: “Os Magos ofereceram três presentes ao Menino Jesus, ouro, incenso e mirra.”

Em torno, contudo, de suas parcas referências, houve uma sedução que se construiu em torno do assunto que foi capaz de tornar-se o registro do começo de ano.

Quando eu era menino, era o dia da queimação das palhinhas, em que se desmanchava o presépio com a eliminação dos enfeites de palha e a guarda das imagens, com cantos e rezas, seguidos de bolos e chocolates. A casa cheirava a incenso, que durante todo o tempo alimentava o Fogareiro, colocado em lugar de honra.

A prática de dar presentes no Natal vem da tradição dos Santos Reis, que iniciaram o costume, levando presentes ao Menino Jesus. O ouro foi interpretado como dádiva concedida aos reis: nascera o Rei de todos os Reis. O incenso até hoje é espalhado nas casas, na chegada dos filhos. Meus filhos nasceram em casa e até hoje tenho a lembrança do cheiro do incenso, da alegria que me tomava de felicidade com mais um descendente. A mirra era o símbolo do sagrado.

Os magos inspiraram todos os grandes pintores da humanidade. Da Vinci, Botticelli, Rubens e tantos gênios da cor e da luz. Recordo até hoje, extasiado, quando, no Museu no Prado, fiquei parado e enfeitiçado com o tríptico de Bosch, em que ele realça menos as figuras e compõe o ambiente da manjedoura; ao contrário de Murilo, no museu de Toledo, nos Estados Unidos, que, em cores viva e com um lindo manto, retrata a figura de Melchior com seus 70 anos, barba branca, ajoelhado diante do Salvador.

Recordo, também, uma cerimônia simples, na Madre Deus, há alguns anos, de queimação de palhinhas no Dia de Reis, quando Dona Prudência, em casa de Bulcão, em latim, entoava a ladainha do Jesus Cristinho. Ela não tinha dentes. Roseana ficou tocada e ofereceu financiar-lhe uma dentadura nova, deu-lhe os recursos. No outro ano a mesma cena se repetiu e Dona Prudência continuava sem dentadura. Roseana perguntou: “Dona Prudência, a Senhora não trocou a dentadura?” Ela respondeu: “Não Roseana, resolvi trocar o piso de minha casa.”

E os Santos Reis: Baltazar, o Mouro, Gaspar, o Oriental, e Melchior, o Europeu, nos ensinam a trocar presentes e nos lembrarmos da infância.

José Sarney

Igreja “oferece” 3 mil votos a políticos que disputam as eleições no Maranhão

Silvia Freire, da Folha de São Paulo

Uma igreja do Maranhão encaminhou ofício a deputados estaduais oferecendo apoio político para as eleições. Na correspondência, a igreja diz que consegue “arrumar mais de 3.000 votos”, entre fiéis e seus familiares.

Pavão Filho recebeu apoio da Casa da Benção em 2006

O documento, assinado pelo missionário Antônio Ferreira Francelino, superintendente estadual da igreja Casa da Bênção, no Maranhão, informa que a igreja dispõe de uma hora na programação de uma rádio local e ministra cultos semanais na casa de fiéis. “Sem mais, espero a sua atenção para um possível apoio nesta eleição”, diz, no ofício.

O próprio missionário disse à Folha que o ofício foi enviado para diversos políticos e que pelo menos um já deu resposta. Outros políticos que não receberam a correspondência também procuraram a igreja em busca de apoio, segundo ele. Francelino disse que os candidatos costumam procurar a igreja em busca de apoio na época das eleições. Neste ano, afirmou ele, decidiu convidar alguns políticos para conversar antes de decidir qual nome os pastores irão recomendar aos fiéis.

A Casa da Bênção tem cerca de mil membros e 18 unidades em todo o Estado. “Temos que apoiar alguém, não é? É claro que nem todo mundo vai votar nesse deputado, porque a igreja não obriga a votar”, disse. “A igreja é livre. Posso apresentar um deputado, mas um irmão dizer que a família já tem outro nome.”

Na eleição passada, segundo o missionário, a Casa da Bênção apoiou o deputado estadual Pavão Filho (PDT). “Ele foi à igreja e o apresentamos dizendo ‘este é o nosso candidato’. Todas as igrejas fazem isso”, disse.

Para Francelino, a igreja não pede nada em troca. Mas espera que o deputado, caso eleito, beneficie projetos e programas criados pela instituição. “Se tivermos algum projeto, vamos chegar e dizer: ‘deputado, o que o senhor pode fazer?’”, disse. Até agora, disse o missionário, a Casa da Bênção não tem nenhum projetos social.

A deputada estadual Helena Heluy (PT) relatou o recebimento do ofício em discurso na Assembleia nesta semana. Heluy, que não é candidata nestas eleições, disse que fez isso para mostrar que, apesar de toda a mobilização para desenvolver uma consciência ética, o voto ainda é tratado como negócio por algumas pessoas.

“Oferecem os votos, tirando toda a consciência e ética. Tratam como um curral eleitoral”, disse a deputada à reportagem. Para o missionário, não se trata de negociação dos votos. “Só falei que a igreja está à disposição para conversar. Não é negociar”, disse.

foto: Paulo Soares/ O Estado