Injustiçamento

Fabiane foi brutalmente assassinada após boatos na internet indicarem que ela sequestrava e matava crianças

Fabiane foi brutalmente assassinada após boatos na internet indicarem que ela sequestrava e matava crianças no interior de São Paulo

Sem que desse motivos para isso, Anna Göldi, 47, viu-se acusada de usar poderes sobrenaturais para infestar de agulhas o leite dado a crianças na casa em que trabalhava, na Suíça. Sessões de tortura garantiram a confissão de um pacto com o demônio, e a falsa denúncia de envenenamento não letal bastou para sua decapitação.

Era 1782. Anna Göldi é considerada a “última bruxa” da Europa; 225 anos após sua morte, foi oficialmente reabilitada, e em sua homenagem construiu-se um museu.

A lembrança do episódio vem a propósito do bárbaro linchamento de Fabiane Maria de Jesus, 33, dona de casa e mãe de dois filhos. Tomada por sequestradora de crianças que executava rituais de magia negra, foi assassinada a pauladas por moradores do bairro Morrinhos, na periferia de Guarujá (SP).

Os mais de 200 anos que distanciam as duas tragédias realçam o quanto há de absurdo no homicídio cometido no litoral paulista.

Não se trata apenas de um caso isolado de obscurantismo atávico, já em si lamentável, mas de sintoma do imenso atraso que caracteriza o Estado brasileiro. Sob muitos aspectos, parcelas expressivas da população ainda enxergam a Idade Média – e nela vivem – quando abrem as portas de suas casas.

No mundo moderno, mesmo que Fabiane Maria de Jesus houvesse sequestrado crianças, caberia à polícia, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário cuidar do caso. Às acusações se contraporiam alegações em contrário, e sua sentença seria proferida de acordo com a lei.

Como se o Brasil tivesse ficado alheio a séculos de evolução histórica, nada disso ocorreu; como se o episódio já não fosse chocante, tudo sugere que a mulher brutalmente assassinada era inocente. Segundo a polícia, nem há registro de desaparecimento recente de menores no Guarujá. A multidão criminosa foi açulada por boatos difundidos nas redes sociais.

Num aparente paradoxo, perfis na internet catalisaram uma histeria coletiva semelhante às registradas séculos atrás – como no famigerado episódio das bruxas de Salém (1692), nos Estados Unidos, quando 20 pessoas inocentes terminaram executadas.

Sendo recorrentes – e até espantosamente estimulados -, os casos de justiçamento no Brasil, talvez não caiba esperar que Fabiane Maria de Jesus seja a “última bruxa” do país.

Os que hoje defendem variantes da justiça com as próprias mãos deveriam refletir profundamente sobre esse linchamento.

 Editorial da Folha de São Paulo, republicado por O Estado do Maranhão

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